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Métodos de Alocação e Escopo Operacional

Esta página detalha os métodos de alocação de tráfego disponíveis no Desire Lines, as diferenças conceituais entre as abordagens de rede sintética e rede real, a classificação aproximada de Nível de Serviço (LOS), as limitações de escopo em áreas urbanas e o envelope de desempenho do motor de alocação.


1. Métodos de Alocação de Tráfego

O plugin disponibiliza dois métodos principais de alocação de tráfego sobre redes viárias (definidos no módulo traffic/assignment.py): All-or-Nothing (AoN) e Equilíbrio por Médias Sucessivas (MSA + BPR).

1.1 All-or-Nothing (AoN / Tudo-ou-Nada)

O método All-or-Nothing (AoN) aloca 100% da demanda de cada par Origem/Destino (OD) sobre o caminho mínimo de tempo em fluxo livre (t0), calculado via algoritmo de Dijkstra.

  • Mecanismo: Passada única (1 iteração). Não considera a degradação de velocidade ou o aumento de tempo decorrentes do congestionamento.
  • Custo Computacional: Baixo (~10× mais rápido que uma alocação MSA típica de 10 iterações).
  • Interpretação da razão v/c: Como os tempos de viagem não são atualizados no AoN, a capacidade calculada serve apenas para avaliação posterior. Se a razão volume/capacidade resultar maior que 1.0 (v/c > 1), isso representa um diagnóstico direto de sobrecarga/déficit de capacidade física no segmento viário, e não um estado de equilíbrio do sistema.

Quando usar o AoN:

  • Diagnóstico rápido de demanda potencial: Para identificar corredores principais de desejo de viagem antes de aplicar restrições de capacidade.
  • Malhas com pouca concorrência de rotas: Quando a topologia da rede viária oferece poucas ou nenhuma rota alternativa relevante entre as origens e destinos.
  • Demanda muito abaixo da capacidade: Em redes rurais com baixo volume de tráfego, onde o congestionamento é insignificante e v/c fica bem abaixo de 1.
  • Linha de base (Baseline): Como cenário de referência para comparar contra o equilíbrio saturado do MSA.

1.2 Equilíbrio MSA + BPR (Method of Successive Averages)

O método de Equilíbrio MSA distribui iterativamente o tráfego considerando o efeito do congestionamento sobre os tempos de viagem, utilizando a equação de impedância do Bureau of Public Roads (BPR).

  • Mecanismo Iterativo: A cada iteração k (k = 1, 2, ..., N):
    1. Os tempos de viagem t_a de cada arco a são recalculados pela curva BPR: t_a = t0_a * [1 + alfa * (v_a / C_a) ^ beta] em que t0_a é o tempo em fluxo livre, v_a é o volume corrente, C_a é a capacidade por sentido, e alfa = 0,15 e beta = 4,0 são os parâmetros padrão BPR.
    2. Realiza-se um carregamento AoN completo sobre os novos tempos t_a, gerando volumes auxiliares y_a^(k).
    3. Atualiza-se o fluxo acumulado combinando o resultado anterior com o auxiliar via média sucessiva: v_a^(k) = v_a^(k-1) + (1 / k) * (y_a^(k) - v_a^(k-1))
  • Convergência: O progresso da alocação é monitorado pelo gap relativo de iteração, registrando a estabilização dos fluxos entre passos sucessivos.
  • Custo Computacional: Moderado (proporcional ao número máximo de iterações configurado, padrão: 10 iterações).

Quando usar o MSA + BPR:

  • Redes viárias com rotas concorrentes: Quando existem caminhos alternativos que disputam a mesma demanda OD.
  • Trechos com demanda próxima ou superior à capacidade: Em cenários onde a sobrecarga de vias principais força o desvio do tráfego para vias secundárias.
  • Simulação de gargalos: Para mapear a redistribuição real do tráfego decorrente de restrições de capacidade viária.

2. Comparativo de Métodos no Desire Lines

Característica AoN Sintético (Delaunay — Aba 3) AoN Rodoviário (Aba 4) MSA + BPR (Aba 4)
Tipo de Rede Sintética (Triangulação de Delaunay entre centroides) Real (Malha rodoviária do SNV/DER via GISBR) Real (Malha rodoviária do SNV/DER via GISBR)
Passadas / Iterações Passada única (1-shot) Passada única (1-shot) Iterativo (padrão: 10 iterações)
Considera Capacidade? Não (rede abstrata sem atributos físicos) Sim (calcula HCM, mas não realimenta tempo) Sim (calcula HCM e realimenta tempos via BPR)
Redistribuição de Rotas? Não Não Sim (redistribui tráfego saturado)
Interpretação do v/c > 1 N/A Diagnóstico de sobrecarga local Tendência ao equilíbrio (redireciona para rotas livres)
Desempenho relativo Instantâneo ~10× mais rápido que MSA Moderado

3. Classificação de Nível de Serviço (LOS) Aproximado

O Nível de Serviço (LOS — Level of Service) do HCM varia formalmente de A (melhor condição operacional) a F (colapso/congestionamento severo).

Aproximação por Faixas de v/c (Decisão D3)

No HCM 6ª Edição, a determinação rigorosa do LOS exige densidade de tráfego (veq/km/faixa) ou porcentagem do tempo gasto em fila (PTSF), parâmetros que necessitam de contagens contínuas e medições de campo indisponíveis no cadastro nacional do SNV.

Em cumprimento à Decisão D3, o Desire Lines reporta o LOS baseado estritamente em faixas da razão Volume/Capacidade (v/c), conforme a tabela abaixo:

Nível de Serviço (LOS) Intervalo de v/c Condição Operacional Identificada
A v/c <= 0,35 Fluxo Livre: Veículos trafegam sem restrições de velocidade; manobras são completamente livres.
B 0,35 < v/c <= 0,55 Fluxo Estável: Pequenas restrições de velocidade e manobrabilidade.
C 0,55 < v/c <= 0,75 Fluxo Estável Controlado: Velocidade afetada pelo volume de tráfego; retenções pontuais.
D 0,75 < v/c <= 0,90 Próximo à Saturação: Restrições severas de manobra; pequenas flutuações de demanda causam filas.
E 0,90 < v/c <= 1,00 Capacidade Máxima: Operação no limite de capacidade da via; fluxo instável.
F v/c > 1,00 Sobrecarga / Colapso: Demanda excede a capacidade; formação de gargalos e filas extensas.

[!WARNING] Nota de Aproximação: O LOS calculado por faixas de v/c é um indicador de diagnóstico visual rápido para destacar gargalos na malha rodoviária. Ele não substitui os procedimentos microscópicos de campo do HCM quando há dados detalhados disponíveis.


4. Escopo Operacional e Sinalização Urbana

4.1 Escopo Exclusivamente Rodoviário (Decisão D2)

O módulo de cálculo de capacidade do Desire Lines foi desenvolvido especificamente para rodovias rurais e interurbanas:

  • Pistas Simples / Duas Faixas: Procedimento completo segundo o HCM 6ª Edição, Capítulo 15.
  • Pistas Duplas / Multilane e Freeways: Procedimento completo segundo o HCM 6ª Edição, Capítulo 12.

Fora de Escopo: Interseções semaforizadas, cruzamentos urbanos, rotatórias, rampas de acesso e trechos de weaving (Capítulos 16 a 19 do HCM). A base oficial do SNV/DNIT não fornece parâmetros operacionais urbanos (como tempos de ciclo de semáforo, faseamento e distâncias entre cruzamentos), inviabilizando a aplicação rigorosa do HCM urbano sem invenção de dados.

4.2 Aviso e Marcação de Travessias Urbanas (Decisão D11)

Em trechos de travessia urbana integrados à malha rodoviária, a capacidade real da via é governada por controles semafóricos e cruzamentos, e não pelas características geométricas do segmento. Aplicar a fórmula rodoviária nesses trechos superestima a capacidade real da via urbana.

Para tratar essa limitação com total transparência:

  1. Conectividade Mantida: O plugin não remove as travessias urbanas do grafo, garantindo a integridade dos caminhos mínimos de transporte.
  2. Marcação de Escopo: Cada arco urbano processado é etiquetado com o atributo escopo = 'urbano' (enquanto os demais recebem escopo = 'rodoviario').
  3. Alerta no Log: Ao finalizar o cálculo de capacidade e a alocação, o log do plugin reporta explicitamente a quantidade de trechos urbanos processados com a aproximação rodoviária.
  4. Filtragem pelo Analista: O analista pode utilizar o campo escopo para isolar ou filtrar trechos urbanos em relatórios e pós-processamentos cartográficos.

5. Envelope de Desempenho (Decisão D4)

Para contornar as limitações de desempenho do motor de redes C++ nativo do QGIS — que não permite atualizar custos de arcos in-place sem recriar todo o grafo a cada iteração do MSA —, o Desire Lines utiliza um motor de grafo próprio em Python puro (traffic/graph.py).

Capacidades e Limites de Processamento

  • Tamanho de Malha Recomendado: Confortável para redes contendo até ~50.000 arcos direcionados.
  • Iterações MSA: Excelente desempenho com o padrão de 10 iterações em áreas de estudo estaduais e regionais.
  • Dijkstra por Origem: A busca de menor caminho é executada uma vez por origem única (e não por par OD individual), reduzindo drasticamente o tempo total de processamento.
  • Ganho do AoN: Como a alocação All-or-Nothing realiza apenas uma passada de Dijkstra, sua execução é aproximadamente 10× mais rápida que o MSA, permitindo processar malhas maiores em poucos segundos.